O polêmico couro legítimo – Parte I

A SRD já tem alguns bons anos de estrada (asfaltada ou de terra) e sempre optamos por usar couro legítimo e ainda é a nossa escolha atual. Isso não significa que ignoramos movimentos como o veganismo ou que não nos preocupamos com o meio ambiente, é que, de fato, ainda não faz sentido abolir totalmente este material.

Antes de mais nada, é preciso esclarecer alguns pontos do que se trata o couro e quais tipos existem. Vou tentar explanar um pouco abaixo.

1 – Couro cromo é o tipo mais utilizado na indústria. Ele já vem totalmente tratado do curtume e é utilizado em seu tratamento o Cromo, metal pesado que pode causar câncer na sua extração. E sim, ele também está presente na liga metálica cromo-molibdênio, consagrada por ser utilizada na construção de tubos para bicicletas. É feito uma lama tóxica com este metal pesado, que estabiliza o couro, sendo macio e maleável e não endurece com água quente. Sua superfície possui uma camada de material que dá a cor à pele e simula diversas texturas, até a própria textura do couro.

Kit de selim e fitas feito com couro cromo. Uma boa vantagem que ele tinha é que funciona muito bem para corte e gravação a laser.

Prós – é mais estável e pronto para usar
Contras – é extremamente poluente, agressivo para o trabalhador que o produz, limita a criatividade e não é biodegradável.

2 – Couro atanado é o tipo de couro que a SRD utiliza. Não é o mais usado na indústria, entretanto é muito utilizado em trabalhos feitos à mão, de pequenos artesãos, como nós, a grandes nomes da moda. O nome “tanino”vem do ácido encontrado em alguns vegetais e o material utilizado para o tratamento do couro é proveniente de cascas de árvores.
O resultado é um couro cru, de cor bege clara e um pouco ressecado, sendo mais instável com água, tornando-se muito maleável. Porém, com água quente fica mais rígido e essa técnica de endurecimento já foi muito utilizada, para fazer armaduras, por exemplo ou dar forma ao couro suspenso dos clássicos selins Brooks. Seu tingimento pode ser feito tanto direto no curtume, quanto pelo artesão. Optamos por nós mesmos finalizar o tingimento in house. Abaixo, uma pequena galeria com alguns exemplos de tingimentos.

Prós – Material mais limpo, com maior liberdade criativa, mínima interferência química e biodegradável.
Contras – Mais caro e escasso no mercado, poucos insumos disponíveis e mão de obra mais demorada.

A SRD passou a utilizar exclusivamente o couro atanado em 2018, mais ou menos quando descobrimos o método de tratamento do couro cromo. Nossa decisão foi muito definida pelo aspecto ambiental, mas o lado criativo e da qualidade do produto também influenciou muito. o grande problema foi que nossa técnica teve que ser muito mais elevada, pois este tipo de couro necessita de mais perícia e conhecimento, pois trouxe problemas que ainda não tínhamos enfrentado. O principal deles é a despigmentação do couro.
Nosso principal material para tingimento é uma tinta feita a base de anilina para roupas/madeira dissolvida com etanol, com tratamento de finalização a base de ceras e óleos naturais. É um método de tingimento limpo e de baixo impacto ambiental e muito versátil em cores, porém, o que descobrimos ao longo do uso de clientes e por nós mesmos é que ele tem duas instabilidades: algumas tonalidades se oxidam com o tempo ou soltam tinta com o uso. É intermitente, porém ainda é um problema. Devido a isso, algumas cores vocês não vêem há um tempo nos produtos feitos pela SRD, principalmente o vermelho e verde. Depois de um tempo de uso, cores vibrantes se tornam cores mais escuras, puxadas para tons naturais ou voltam para a cor bege da pele (no caso do verde e vermelho). Os tons mais estáveis são os tons de terra, entre amarelo e marrom, o rosa e preto.

Novas soluções

Recentemente, um de nossos fornecedores lançou uma nova linha de tintas para customização de sneakers que tem se mostrado extremamente estável e duradoura, sem despigmentação, descascar ou oxidar existem alguns testes rodando, mas devido o atual contexto de isolamento social, devido ao Coronavirus, ainda não terminamos de testar. Além de sanar diversos problemas que vínhamos enfrentando, ele abriu novas possibilidades, principalmente para a técnica de silk screen. Abaixo, alguns exemplos de nossos testes.

Não achei que teria tanto material para escrever, então resolvi dividir este post em duas partes, sendo esta primeira sobre o couro e a segunda, sobre a diferença entre couro legítimo e couro sintético e o porquê ainda optamos pelo couro legítimo.

Clique aqui para a continuação

4 respostas para “O polêmico couro legítimo – Parte I”

  1. Muito esclarecedor o texto. Aguardando a segunda parte. Tenho um selim SRD a pelo menos 5 anos. Está numa bike que uso eventualmente. Gosto muito dele e com o tempo, assim como explicaste, a tonalidade mudou e acabei gostando do resultado. Parabéns pelo trabalho!

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