Um alerta que teve um custo muito alto

Esse post será sobre um assunto que eu jamais gostaria de escrever, mas me sinto na obrigação de fazê-lo. Nem vou ler duas vezes, então, perdoem qualquer erros de escrita encontrados nele.

Este final de semana do dia 7 e 8 de novembro de 2015 foi um dos mais agitados. No sábado cedo saí de SP para pedalar com o Erick até Paranapiacaba. Na ida ele levou uma queda besta que deu uma machucada na coxa, mas dava para pedalar, um pouco mais devagar, mas conseguimos, ainda assim, rodar 160 km. O resto do fim de semana também foi corrido, mas no final do domingo tive a notícia do falecimento de um amigo em um acidente de estrada enquanto pedalava na rodovia Anhanguera, foi atropelado enquanto atravessava uma alça de acesso. Até então, não tinha sentido na pele a sensação de confusão que senti e sinto ainda. 

O meu amigo era o Tiago Alves. Conheci em um bairro que morei em Guarulhos, há quase dez anos atrás. Na época nem sonhava em fazer ciclismo de longa distância, muito menos dedicar meu trabalho às bicicletas. A época era de música, tocar violão e guitarra, esse era o assunto que sempre tive com ele.

Há alguns meses, ele voltou a fazer contato comigo pelo Facebook, comentando empolgado que estava começando a pedalar. Já fazia alguns trajetos bons, eu acompanhava despretensiosamente a rotina dele pelo Strava. Só via, a cada dia, a distância dos treinos dele aumentar. Ele usava uma bicicleta simples, aro 26 com um daqueles quadros aço carbono que são pesados, servia para eu lembrar que sempre o que importa é o prazer em pedalar, não o equipamento.

Mas se há alguma coisa que eu, você ou qualquer um tem que ter em mente, com pouca ou muita experiência em ciclismo de longa distância é: A estrada é perigosa. Não ignore este fato. Eu mesmo costumo falar que acredito ser mais perigoso pedalar dentro da cidade do que na estrada, pelo fato de estar exposto a mais carros, mais pessoas imprudentes no volante, que se deve passar longe de ônibus, pois motoristas por profissão geralmente são estressados e não têm ainda educação o bastante para lidar com esse novo elemento no trânsito. Sabe aquela história de que o avião é o meio de transporte mais seguro do mundo, mas quando ocorre um acidente é quase sempre fatal? Com a estrada é a mesma coisa. Apesar de  acreditar que a estrada é mais segura que a cidade, dificilmente ela deixa feridos, devido a velocidade com a qual as coisas ocorrem.

Esse post é para deixar claro algumas coisas que a gente sempre vê quando se está no acostamento: marcas de derrapagem no acostamento, bandas de rodagem de pneus de caminhão recondicionados que se soltam inteiras, parafusos soltos que pesam, às vezes, mais de um quilo…isso tudo jogado dentro do espaço em que pedalamos. Eu nunca ignoro isso, imagino que você que frequenta a estrada também não ignora, mas procura não dar muito alarde. O que eu quero com esse texto é relembrar que devemos temer a estrada. Isso não significa ter medo dela, mas sim respeitar o espaço em que está pedalando, saber se comportar no acostamento e fazer todo esforço possível para minimizar ao máximo possíveis acidentes.

Até aqui esse texto é uma verborragia sem muita estrutura, pois minha cabeça ainda está confusa a respeito do que aconteceu com o Tiago, mas o que espero de você que leu até aqui é que jamais ignore a estrada, assim como eu mesmo já fiz inúmeras vezes, porém se assegure de jamais passar por uma alça de saída e acesso da rodovia sem olhar quantas vezes for necessário para assegurar de que pode cruzar, mesmo que seja uma entrada e saída de posto de gasolina. Jamais deixe sua bicicleta desenvolver muita velocidade em uma descida, por mais prazeroso que seja, pois você não sabe o que pode ter nos próximos metros de asfalto. Jamais abuse da bicicleta em chuva ou neblina, pois não dá para brincar com a aderência do asfalto e a visibilidade. Jamais saia sem um telefone com bateria o suficiente para informar sua família aonde você está.

Existem tantos “jamais” que não vou listar todos, acredito que tenha conseguido dar o recado.

E quero que fique bem claro que esse texto não é uma carta de desistência do ciclismo de longa distância, mas sim um alerta, um alerta que teve um custo alto, mas mesmo assim válido para que essa modalidade de ciclismo a cada dia que passar seja mais segura, que um dia desses tenhamos em nossas estradas uma infra-estrutura pensada para quem trafega ou de bicicleta ou a pé pelas rodovias do país e que o motorista que dirige pela rodovia respeite o acostamento e quem está nele. Por mais que seja utópico isso, eu ainda assim acredito.

14 respostas para “Um alerta que teve um custo muito alto”

  1. Assino em baixo o seu depoimento, viajo muito em viagens de cicloturismo , evito sempre que possível estradas asfaltadas, infelizmente somos remunerais em quase todas as situações. Uma que me sempre alerto foi a que vc falou sobre as decidas , o bom é curtir, pq nas descidas muitas vezes vc tem o melhor da viagem, fora o aspecto da segurança. Meu lema é ” A grande aventura é não ter aventura. Quem vive esse mundo da bicicleta sempre sente a perda, principalmente vc que tinha um elo forte de amizade. Valeu seu comentário como alerta para todos os amantes do bem.

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  2. Concordo com tudo que postou, quero acrescentar que coloco no papel as minhas informações pessoais:
    tipo sanguíneo, medicamento que uso para PA, telefone e nomes para contato, possíveis alergias e etc, para o caso de estar desacordado, e pau no gato o pedal não pode parar…

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  3. Eu vi um companheiro de pedal que moreu e que foi atropelado ao meu lado por um caminhão durante uma prova de audax em SC. Sei o que você està sentindo e concordo com o que você escreveu. Andar de bicicleta no Brasil é perigoso demais.

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  4. Triste.
    Me dá medo também. Procuro estar semore alerta. E mais ainda por pedalar só por aí.
    Creio que isso é um fator a repensar. Porque se você pedala com alguem ou em grupo; ainda tem um suporte;ajuda;socorro..
    As pessoas (não generalizando )não param para juntar você do chão. … 😦

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  5. Broder, a gente pode olhar milhões de vezes, sinalizar o máximo possível, se iluminar na intensidade de uma supernova, usar todos retrovisores, pedalar dentro de uma armadura, evitar ao máximo os caminhos inseguros e os motoristas violentos, etc… e mesmo assim o trânsito motorizado e todas suas nuances mais sórdidas possíveis vão continuar fora do nosso controle. Muitas vezes não basta a gente se proteger, a culpa não é simplesmente nossa por estar sendo violentado e atropelado nas estradas e nas cidades, tem muita coisa acontecendo por trás disso… Meus pêsames pelo seu camarada! Força!

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    1. Sim, concordo e esse é justamente o ponto: tem muita coisa que a gente não controla, mas temos que nos esforçar ao máximo para reduzir o risco naquilo que temos controle. Já temos uma margem grande demais de incerteza para permitir mais variáveis ainda. Ciclismo de longa distância é minha paixão, mas temos que respeitar os riscos e sempre levar eles em conta

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  6. Cara eu era amigo do Tiago, ainda não caiu a ficha, não creio como que por um descuido dele ou por agressividade de alguém uma vida tenha sido ceifada, estou muito triste e imagino que vc tb esteja, mas creio que ele está em um bom lugar agora, só me resta agora orar pelos familiares para confortar deus corações.

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  7. A questão chave no Brasil se chama educação, somada a isso vem o respeito. Nos países europeus onde o ciclista é respeitado, e aqui posso citar como exemplo a Alemanha, a Holanda e a Dinamarca, pode-se cruzar com segurança esses países em rotas ciclísticas reconhecidas pelo GOOGLE ou roteáveis em qualquer mapa de GPS para bicicletas. Porém engana-se quem achar que todas elas são em ciclovias. Nada disso, muitas são em rodovias secundárias sem qualquer acostamento, onde o ciclista trafega normalmente na faixa de rolamento e os veículos motorizados o consideram como um veículo normal, respeitando os lugares certos para ultrapassar; esse tipo de rota é comum na Alemanha. Lá porém há algo que é proibido fazer: pedalar em acostamentos de autoestradas (autoban). Na Holanda vi estreitas rodovias da largura de um carro, onde os acostamentos são ciclofaixas. Essas engenhosas rodovias são em trechos retos e de pouco movimento de automóveis. Quando há veículos em sentido contrário eles “invadem” um pouco as ciclofaixas para poderem passar um pelo outro, mas tendo em conta que a preferência é do ciclista. Há Dinamarca também há muitos acostamentos transformados em ciclofaixas em rodovias mais largas e com um razoável movimento de veículos. Enquanto isso no nosso Brasil, devido a ausência de educação e respeito ao semelhante, por parte dos motoristas, até em estradas de terra, com pouco movimento, está perigoso pedalar, principalmente quando vem um motociclista atrás de você e tira uma fina na sua bike.

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